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Itamaraty quer continuar próximo dos árabes

O objetivo do novo chanceler, Antonio Patriota, é diversificar parcerias mundo afora. Uma das regiões escolhidas é o mundo islâmico, do qual fazem parte os países árabes.
O novo ministro de Relações Exteriores, Antonio Patriota, assumiu a pasta em janeiro com a missão de dar continuidade ao trabalho de aproximação do Brasil com o mundo árabe. Diversificar parcerias foi um dos pedidos da presidente Dilma Roussef ao ministério. E o chanceler já começou a trabalhar para isso. Tem encontros agendados para breve com autoridades da Palestina e do Catar e também planeja uma aproximação com o mundo muçulmano, por meio da Organização da Conferência Islâmica. Nesta segunda-feira (21), Patriota foi recebido por lideranças da Câmara de Comércio Árabe Brasileira: o presidente Salim Taufic Schahin, o vice-presidente de Relações Internacionais, Helmi Nasr, o secretário-geral, Michel Alaby, e o assessor de Relações Internacionais, Alberto Paiva.
Leia abaixo trechos da entrevista concedida à ANBA.


ANBA – Que diretrizes o Itamaraty recebeu da presidente da República Dilma Rousseff a respeito das relações com os países árabes? Dar continuidade ao esforço de aproximação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com os países árabes?
Antonio Patriota - Sem dúvida. A presidenta me pediu para consolidar todo esse esforço de diversificação de parcerias, que foi uma das tônicas da política externa do governo Lula. Ela havia manifestado intenção de comparecer à Cúpula da ASPA (Cúpula América do Sul-Países Árabes), que estava prevista para ocorrer em Lima (Peru), em 16 de fevereiro. Em função dos acontecimentos no mundo árabe ela foi postergada. Mas o fato de ela ter indicado, já no início do governo, em janeiro, que compareceria (à Aspa), demonstra o seu compromisso com esse mecanismo. A Aspa é um mecanismo inovador, que tem aproximado as duas regiões em torno de uma agenda positiva de cooperação, comércio, investimentos, conhecimento mútuo, valorização da contribuição do mundo árabe na nossa cultura, na nossa identidade, e também de despertar junto ao povo, à população da sociedade civil dos países árabes o interesse pela América do Sul, que é uma região de oportunidades, de crescimento econômico, com inclusão social, de estreitar relações com uma parte do mundo muitas vezes associada a uma agenda negativa. O interessante também da Aspa é que associa o mundo árabe a uma agenda exclusivamente positiva.
Fiquei muito feliz de poder inaugurar a exposição de arte islâmica no Rio de Janeiro (Islã, de outubro a dezembro de 2010), que não teria sido possível sem essa aproximação que se desenvolveu no âmbito da Aspa. E hoje foi uma grande honra receber um dicionário árabe português do professor Nasr. (dicionário traduzido por Helmi Nasr, da Câmara Árabe).


O governo Lula fez um primeiro trabalho de aproximação com os países árabes. Agora vamos entrar em uma nova fase de relacionamento com a região?
A verdade é que já mesmo antes do governo Lula o mundo árabe sempre foi importante para o Brasil. Não podia deixar de ser, com o contingente de árabes, libaneses e sírios que fazem parte da nossa população, ainda mais aqui em São Paulo, que é impossível você atravessar uma esquina sem se deparar com algum descendente. Mas o que o governo Lula sim contribuiu para uma intensificação dos laços e uma atualização dos contatos. O presidente Lula foi o primeiro presidente brasileiro, inclusive, a se dirigir ao Plenário da Liga Árabe, no Cairo. Depois viramos observadores da Liga Árabe. Até mesmo agora que o mundo árabe passa por esse momento de turbulência, efervescência social, política, com manifestações que revelam uma aspiração por maior democracia, por governos mais representativos, eu acho que nós temos que velar para que o contato entre as sociedades civis dos países da América do Sul, do Brasil e do mundo árabe se mantenham e se desenvolvam, se aprofundem.
Vejo também com muita satisfação que hoje em dia é mais fácil viajar para o mundo árabe. Existem conexões diretas, aqui entre São Paulo e os Emirados Árabes Unidos, São Paulo e o Catar. Turquia não é mundo árabe, mas é uma ponte também com o mundo islâmico e há vôo direto para Istambul também. Eu próprio devo viajar ao Catar agora durante o carnaval. Vou fazer uma viagem para o Oriente, China e Índia, e na volta, já que eu troco de avião no Catar, vou aproveitar para me entrevistar com autoridades de um país que desponta, de um país muito influente.

Essa viagem para o Catar será a sua primeira visita a um país árabe como ministro?
Em função do voto que ocorreu no Conselho de Segurança (ONU) semana passada, sobre os assentamentos israelenses, eu mantive contato telefônico com o chanceler palestino e devo encontrar-me com ele na Ilha de Granada, no Caribe, onde ocorrerá a próxima cúpula Caricom (Comunidade do Caribe) (A Cúpula ocorre de 25 a 26 de fevereiro). Ele comparecerá como convidado, eu também comparecerei e teremos um encontro bilateral.

E já há outras atividades previstas, para o decorrer do ano, entre o governo brasileiro e os países árabes?
Sem dúvida. E esperamos que a Aspa seja marcada para daqui alguns meses...

Não está marcada para abril?
É uma data tentativa. Pode ser abril, pode ser mais um pouco mais para frente. E eu gostaria sim de viajar à região ainda no primeiro semestre. Estamos aqui ainda na fase de planejamento, mas já mandei para lá o nosso diretor de Oriente Médio, que é o ministro Carlos Ceglia, que acabou de visitar Líbano, Síria e Arábia Saudita. Inclusive temos interesse de uma aproximação com a Organização da Conferencia Islâmica (OIC), sediada em Jeddah, na Arábia Saudita, e o ministro Carlos Ceglia teve contatos lá.

Algum motivo especial para essa aproximação?
É um agrupamento de mais de 50 países que reúne desde a Indonésia até o Marrocos. É uma parte muito importante da comunidade internacional que nós queremos conhecer melhor, entender melhor as aspirações, a dinâmica desse mundo e também contribuir de alguma maneira. Existem projetos de cooperação que são veiculados através da OIC, além de ser uma organização que tem uma participação muito efetiva nas Nações Unidas, por exemplo, em Nova York e em outros órgãos multilaterais. Faz parte dessa agenda de diversificação de parcerias, de diversificação internacional em todos os quadrantes. O Brasil, na verdade, tem mais islâmicos do que dois países que são membros plenos da Organização da Conferência Islâmica, que são Guiana e Suriname.
Ministro, e os acordos de comércio do Mercosul com os países árabes? O Mercosul assinou acordo de comércio com o Egito, também assinou acordo quadro para começar a negociar com Palestina, Síria (ministro: existe interesse da Jordânia também), ainda está pendente o acordo com o Conselho de Cooperação do Golfo...
Com o Conselho de Cooperação do Golfo entrou um pouco em compasso de espera. Mas esteve presente agora na última cúpula do Mercosul, em Foz do Iguaçu, uma representação dos Emirados Árabes Unidos. Há grande interesse da região em uma aproximação com o Mercosul. Mais uma vez a Turquia, um pouco diferente, mas também esteve presente um assessor do primeiro ministro, a ministra de Comércio da Síria (Lamia Assi), o ministro de Comércio da Palestina (Hassan Abu Lidbeh), Emirados Árabes Unidos ( ministro dos Negócios Estrangeiros, Abdullah Bin Zayed Al Nahyan). Então, continuaremos trabalhando.

O acordo com o Golfo deverá sair?
Com o Golfo está em uma fase de reavaliação da iniciativa, o que não impede que o comércio aumente. Aliás, o comércio com o mundo árabe de um modo geral tem aumentado muito, mais de 300% durante o governo Lula, em termos de exportações brasileiras. É uma região com grande potencial de aumento para nossas exportações, em particular agrícolas.

E nos foros internacionais como Nações Unidas, G20, há setores onde o Brasil deve trabalhar em conjunto para somar forças com os países árabes?
Nossas relações com diferentes regiões do mundo são multifacetadas. Claro, existe o interesse econômico, de diálogo político. O mundo árabe é muito diverso e muito amplo. Os interesses, então, são variados. Mas, na medida em que o Brasil está, por exemplo, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, e no mês de fevereiro presidindo o conselho, é muito importante para o Brasil manter um diálogo político de alto nível com os países da região para examinar, por exemplo, questão Israel-Palestina. Agora também teve referendo no Sudão, que é um membro do mundo árabe, e transcorreu de forma relativamente pacífica e serena, o que nos encoraja.

O Brasil vai continuar tentando ser um mediador de paz ali na região ou isso era muito um papel do presidente Lula?
Acho que o Brasil pode, junto com outros países, trazer uma contribuição. Ser mediador depende de ser chamado, você não se auto-proclama mediador, depende de os que estão na situação te chamarem. Mas, por exemplo, há uma circunstância interessante, no Conselho de Segurança atualmente, que estão presentes Brasil, Índia e África do Sul, como membros não permanentes. São três países que têm boas relações com o mundo árabe e com Israel. Então há interesse de atuar como grupo de apoio aos esforços de paz entre israelenses e palestinos, como aconteceu na Conferência de Anápolis, que representou, a nosso ver, um desenvolvimento positivo porque incluiu um número maior de países na discussão da questão Israel-Palestina. E justamente Brasil, Índia e África do Sul estavam presentes. (Isaura Daniel)
Fonte:ANBA - Agência Nacional Brasil Árabe.
22/02/2011