Perfil
Amyr
Klink o único brasileiro a fazer as rotas marítimas do Círculo
Polar Ártico e da travessia do Atlântico Sul. Fez viagens de
navegação solitária, como um observador macro que expecta
o universo das águas e suas várias formas espetaculares.
Um brasileiro competente, destemido, corajoso, determinado e bem sucedido,
que segue em busca de novas rotas para desenvolver as suas incríveis
expedições. O mar sempre fascinou Amyr Klink, que atualmente
tem se dedicado com exclusividade em seus projetos para novas incursões.
Entrevista
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NetBabillons
O que o levou a se tornar um navegador solitário ?
Amyr Klink
Literatura, comecei a ler literatura francesa, sobre viagens polares primeiro
de um autor francês Polemi, que depois conheci na Polinésia
aí comecei a me interessar pelas viagens de um casal francês
que invernou na Antártica na década de 70, daí para
frente fui colecionando livros.
Portal
NetBabillons
Qual sua formação profissional ?
Amyr Klink
Sou economista, me formei em economia e administração, depois
fiz um curso de literatura francesa.
Portal
NetBabillons
Fale sobre o seu gosto em expedições de navegação
solitária ?
Amyr Klink
Navegação em solitário é uma forma de navegar
extremamente técnica e equilibrada e me encantei pela idéia
de fazer viagens de longa duração e fazer as viagens em solitário
era muito mais simples do ponto de vista logístico, acabei fazendo
a travessia do Atlântico remando em solitário, mas a minha
paixão sempre foi a vela, mas vela oceânica em solitário
exigia recursos maiores, barcos muito mais técnicos e foi um aprendizado
que fui percorrendo degrau por degrau.
Portal
NetBabillons
Em suas expedições, houveram momentos de medo ? Como foi ?
Amyr Klink
Medo é um dos problemas a serem resolvidos, sinto medo quando estou
descendo uma onda de 25 metros de altura, também sinto medo quando
há cheiro de gás no barco, mas o pior medo é o de não
colocar em prática um projeto por razões burocráticas,
políticas, etc.
Portal
NetBabillons
Para desenvolver estas expedições de navegação
solitária, você conta com o anteparo de uma equipe profissional
que normaliza um roteiro cronológico? Como funciona tudo isso ?
Amyr Klink
Deveria funcionar como uma empresa, como uma máquina extremamente
bem lubrificada, infelizmente não é assim, então existem
etapas de um projeto onde a gente conta com um número muito grande
de pessoas, mas sempre é necessário ter uma característica
que não é cientificamente administrada, que é o bom
senso, muitas vezes eu tive sucesso nos projetos apesar de trabalhar com
pessoas não competentes, outras vezes eu tive sucesso apesar de estar
numa direção errada e estar com pessoas extremamente competentes,
não é uma ciência precisa e exige muito essa capacidade
de descobrir nas pessoas o seu talento, de saber abrir mão de opiniões
que, às vezes, a gente defende com veemência, então
eu acho que é um exercício bastante complexo, que graças
a Deus, eu aprendi e gosto de praticar.
Portal
NetBabillons
Na sua última viagem, que dispositivos tecnológicos usou,
em comunicação e navegação ?
Amyr Klink
Em comunicação usei muitos, mas serviram para pouca coisa,
a não ser para falar com a minha família, em navegação
eu usei apenas os navegadores por GPS, mas não pude me valer dos
recursos que estão disponíveis hoje em dia, porque na Antártica
não há cartografia, e também não adianta nada
ter cartografia se a gente está totalmente fora em uma viagem de
circunavegação das rotas comerciais, da informações
batimétricas, cartográficas, meteorológicas; foi mais
ou menos um exercício de retorno as técnicas antigas de navegação,
onde a gente ia sem contar com alguma forma de informação
externa e talvez por isso foi uma viagem muito especial.
Portal
NetBabillons
Que tipo de alimentação você utilizou durante as viagens
?
Amyr Klink
Já usei alimentação de diversos tipos, de alta tecnologia,
alimentação sintetizada em outras experiências, mas
hoje eu procuro resgatar as técnicas antigas de alimentação,
a cultura culinária que a gente perdeu por causa do advento da geladeira,
que reduziu muito o talento culinário, conhecimentos sobre conservação
de alimentos e preparo e até sobre as dietas. Hoje em dia o mundo
se alimenta muito mal, porque está acostumado com hábitos
errôneos, a rapidez da alimentação, a facilidade de
acesso a certos produtos e a geladeira que introduziu hábitos alimentares
nem sempre saudáveis.
Portal
NetBabillons
Quais os aperfeiçoamentos que houveram desde a sua primeira viagem,
no que diz respeito sobrevivência ?
Amyr Klink
Eu navego em regiões que não adianta ter equipamentos de sobrevivência
muito sofisticados porque, às vezes, a gente só pode contar
com a habilidade própria. O aspecto que mais evoluiu nos últimos
10 anos é o da comunicação, é o fato de você
poder dizer que está com problemas, mas, graças a Deus eu
nunca precisei disso.
Portal
NetBabillons
Amyr Klink, quando você está navegando o que faz para passar
o tempo ?
Amyr Klink
Nada, o grande problema não é como passar o tempo, o grande
problema é como encontrar o tempo para dormir, a grande obsessão
do navegador solitário é dormir, porque não se pode
dormir mais do que 25 minutos, então a busca pelo sono é a
primeira obsessão, é necessário encontrar tempo para
dormir, todo o resto é secundário; a primeira preocupação
minha é administrar o problema do sono, eu vou armazenando essas
etapas de 25 minutos de sono como se fossem poupança numa conta bancária
para os momentos de mau tempo onde você não pode dormir por
dois ou três dias, então não há tempo ocioso
no barco, nem preocupação em como gastar o tempo.
Portal
NetBabillons
Em suas navegações solitárias você teve algum
contato com algo estranho tipo extraterrestre ou aparições
ufológicas ?
Amyr Klink
Não, nunca, mesmo se eu tivesse visto em solitário ninguém
acreditaria. Numa navegação que eu fiz no Canal de Beagle,
na Patagônia e não estava sozinho eu vi um disco, mas eu acho
que essas aparições interpretadas assim por uma mera visagem
de um grupo de pessoas estão sujeitas a muitas ilusões de
ótica e interpretações errôneas de fenômenos
que a gente desconhece; eu acredito que elas existem mas não tive
a oportunidade de confirmar nenhuma delas.
Portal
NetBabillons
Dos seus projetos de navegação solitária, qual o mais
ousado e radical ?
Amyr Klink
Foi o último de contornar a Antártica por uma rota muito difícil
usando uma mastreação complemente nova no mundo, não
completamente testada ainda, sem dúvida foi uma experiência
que eu tive que acreditar no conceito tecnológico que escolhi; fui
muito criticado por isso, mas acabei fazendo uma viagem sem incidentes.
Portal
NetBabillons
Você se transformou, de navegador solitário a empreendedor,
fale um pouco sobre o Amyr Klink empresário ?
Amyr Klink
Não há nenhuma diferença, infelizmente sou obrigado
a ser empresário às vezes. Eu não gosto de mexer com
problemas comerciais e financeiros, detesto, mas é uma das etapas
que se tem que passar. O fato é que não há nenhuma
distinção entre o navegador e o empreendedor, porque para
fazer viagens de longa duração, para construir 3 ou 4 anos
de autonomia a primeira característica é a do empreendedor,
não quer dizer necessariamente com uma visão comercial ou
financeira; você é obrigado a empreender a solução
do seu projeto, a solução dos problemas para alcançar
um objetivo, então essa característica de empreender é
extremamente importante para qualquer navegador.

Para Amyr Klink
expedicionar em aventuras de raras emoções faz parte do desbravar
sempre.
Portal
NetBabillons
A emoção de auto superação atingindo record's,
deve ter trazido um novo sentido em sua vida ? O que acrescentou?
Amyr Klink
Nada, nenhum sentido; eu nunca fiz por auto superação, eu
fiz porque gosto muito do mar, eu queria ir aonde não era possível
ir por outro meio, pela paixão que tenho por conhecer esses lugares,
jamais fui com o intuito de provar minha superioridade, competência,
força física, ou demonstrar o intuito de auto superação,
eu não gosto de exercícios de auto superação
e demonstração da força humana, isso tudo vira uma
grande bobagem e dura muito pouco no mar.
Portal
NetBabillons
Antes de rumar por mares, onde Amyr Klink navegava profissionalmente ?
Amyr Klink
Me formei em economia, trabalhei em banco, em uma empresa imobiliária,
depois fui cuidar das atividades da minha família em Parati que eram
altamente problemáticas e burocráticas, até que tive
um acidente com minha mão direita e fiquei imobilizado durante 2
anos, aí resolvi me dedicar profissionalmente aquilo que gostava
de fazer, que era navegar.
Portal
NetBabillons
Amyr Klink, você faz parte integrante do patrimônio histórico
do Museu Nacional do Mar em São Francisco do Sul no Estado de Santa
Catarina, onde é homenageado com uma sala que leva seu nome e fala
dos seus feitos. O que significa para você ser nacionalmente reconhecido
?
Amyr Klink
Eu tive o privilégio de ter tido a mesma idéia, simultaneamente
na época em que o Dalmo, Superintendente do IPHAN, estava pensando
nessa idéia, sem que houvesse uma conexão entre nós.
Eu vim procurar esta área para comprar em 1988 que estava a venda
e o chefe do cartório de São Francisco do Sul me mostrou a
área; tive de barco e pensei: "puxa esta é a área
perfeita para se fazer um museu de embarcações brasileiras",
quando voltei da Antártica dois anos depois, soube de uma pessoa
que havia materializado essa idéia e ainda me convidou para assistir
a inauguração, foi uma coincidência! na qual ele foi
o autor e executor, eu simplesmente sonhei com a idéia e esqueci.
Me sinto parte desta origem, eu gosto de estar presente junto do conceito
e a idéia do Museu, que é extremamente importante para um
país como o Brasil.
Portal
NetBabillons
Do Amyr Klink escritor conte-nos sobre seus livros ?
Amyr Klink
Não me considero um escritor, estudei literatura, gosto muito de
escrever, nunca permiti que um texto meu fosse revisado, gosto de entregar
textos prontos. A experiência de escrever é muito gratificante,
muito difícil, tensa durante o período em que você escreve.
Na minha família era comum o exercício de escrever, infelizmente
no Brasil as escolas não exigem que os alunos escrevam, nem um aluno
é obrigado a manter um diário de sua vida, que é um
crime enorme, é um absurdo não se aprender o exercício
de escrever. Eu gosto de escrever e a experiência que tive como escritor
foi bem sucedida, mas não me qualifica como escritor profissional.
Portal
NetBabillons
Seus livros de cabeceira, quais são ?
Amyr Klink
Eu gosto muito dos poetas clássicos da literatura francesa que estudei.
Dos livros que gosto de reler como texto literário brasileiro o de
Campos de Carvalho é o que acho que tem um texto maravilhoso embora
pouco conhecido, dos livros que me dão prazer lendo independente
da qualidade literária tem os exploradores da fase heróica
do final século passado e início deste.
Portal
NetBabillons
O filme Water World, um campeão de bilheteria, estrelado pelo ator
Kevin Costner, causou alguma identificação ou familiaridade
com você ?
Amyr Klink
A ficção não me impressiona, o que me impressiona são
os documentários e filmes reais, a ficção depende da
capacidade criativa. Teve uma parte técnica que não era nada
de ficção do filme, que usaram multicascos maravilhosos feitos
por um sujeito que eu admiro muito na França, teve também
uma parte técnica que gostei muito. O enredo achei normal.
Portal
NetBabillons
Como sua esposa e filhas vêem o pai, o fera de expedições
radicais ?
Amyr Klink
Minhas filhas são pequenas, não sabem o que é uma expedição
radical, elas sentem muito minha falta, a ausência nos períodos
que estou viajando, no entanto eu sou muito mais presente do que a grande
maioria dos pais que eu conheço. Me dou muito bem com a Marina, ela
se desdobra ao máximo para ajudar a realizar os meus projetos mesmo
sabendo que vai haver uma separação física e a separação,
na verdade é muito relativa, porque a gente se fala todos os dias
pelo rádio, ela torce, cuida dos problemas aqui, acho que casei com
a pessoa certa, paciente, aguenta fãs malucas e me dá tempo
para ficar com as meninas, a gente fica junto, o nosso trabalho é
muito família, muito próximo. Achei que isso ia diminuir o
rítmo das viagens, ao contrário aumentou.
Portal
NetBabillons
Na gastronomia qual é a sua predileção ?
Amyr Klink
Eu gosto muito da gastronomia regional, local, quando vou num país
diferente, eu gosto de descobrir coisas específicas daquele lugar,
mesmo que sejam coisas fora da nossa cultura, estranhas. Eu gosto muito
da culinária oriental, árabe, do nordeste brasileiro, da culinária
de determinados segmentos de trabalho: do peão boiadeiro, do caboclo
do sertão, do pescador de determinada região; gosto muito
de experimentar..
Portal
NetBabillons
Amyr Klink você é considerado pelos brasileiros como um super
star do esporte radical, bem sucedido profissionalmente, com uma carreira
de pleno êxito. Que conquistas ainda espera buscar ?
Amyr Klink
O que realiza o homem, não é aquilo que está feito,
não é sentar em cima daquilo que a conquistou, mas é
aquilo que o está alimentando para frente, não me considero
nem um pouco realizado, por que ainda tenho muita coisa para fazer, entre
elas o Parati II e as atividades voltadas integralmente ao mar.
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NetBabillons
As suas expedições marítimas culminaram em fazer de
você um preservador mór do meio ambiente ?
Amyr Klink
Eu não sou um preservador mór, sou um observador mór,
tenho muito envolvimento com soluções voltadas ao meio ambiente,
não me considero um ecologista de carteirinha, gosto do planeta onde
vivo, tive o privilégio de nascer no Brasil, mas infelizmente o Brasil
é um dos países que mais causa dano a humanidade. Assisti
uma palestra com Peter Blake, um dos meus ídolos da navegação,
ele está fazendo uma expedição de monitoramento das
águas no planeta, perguntaram para ele qual é a responsabilidade
dos governos para resolver os problemas de saneamento de água que
é um desastre, da poluição... ele deu a resposta mais
genial que eu vi até hoje: "nenhuma, o que adianta o governo
fazer alguma coisa se as pessoas continuam jogando pontas de cigarro, plástico,
devolvendo as pilhas no lixo, consumindo produtos sem responsabilidade,
a solução está nas pessoas; não é difícil
convencer as pessoas que não joguem lixo no chão". Eu
acho que é uma consciência que ainda não temos, há
muito que evoluir no aspecto educacional.
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Contato:
Site Oficial: www.amyrklink.com.br
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NetBabillons, 03 de Novembro de 2001.