Nunca existiu autonomia profissional para os Jornalistas, afirma Pesquisador
As discussões sobre a necessidade ou não de diploma para o exercício jornalístico
"costumam confundir liberdade de expressão com liberdade de imprensa, e liberdade
de imprensa com liberdade de empresa". Segundo o pesquisador do Núcleo de
Estudos sobre Mídia e Política (Nemp) da Universidade de Brasília (UnB), Venício
Lima, essa consusão ficou evidente durante o julgamento no Supremo Tribunal
Federal (STF), que acabou ontem (18) com a exigência do diploma de jornalista
para quem exerce a profissão.
Lima disse que a confusão ficou mais evidente nos momentos em que advogados
e ministros partiam da falsa premissa de que "os jornalistas seriam os senhores
de suas pautas”. “Quem assistiu ao julgamento notou que as condições reais
da autonomia passaram longe das discussões. Até mesmo o advogado da Fenaj
[Federação Nacional dos Jornalistas] cometeu esse equívoco durante a defesa,
quando questionou a dispensa do diploma sob o argumento de que a profissão
seria o quarto poder. Isso é falso porque esse poder nunca pertenceu aos profissionais,
mas às empresas.”
Para o pesquisador, “ficou a impressão de que toda essa discussão [ocorrida
no STF] estava no vazio, uma vez que, nos últimos 40 anos – durante a vigência
da Lei de Imprensa – nunca os jornalistas tiveram tal independência”. Por
esse mesmo motivo, Lima acredita que a dispensa de diploma para a prática
jornalística não trará grandes mudanças para a imprensa brasileira.
“O jornalista já funcionava como um profissional qualquer. Só que as pessoas
muitas vezes ignoram o fato de que esse exercício profissional era feito em
empresas que têm, como quaisquer outras empresas capitalistas, sua ética e
seus objetivos voltados para o lucro”, afirmou.
Lima defende que o estudo da ética como disciplina, comum aos cursos de jornalismo,
não representa uma garantia de que o exercício profissional da atividade seja
realizado de forma ética. “Não haverá necessariamente prejuízos éticos porque
formação e diplomas não garantem ética nas atitudes do indivíduo”, argumenta.
Já as corporações sindicais ligadas a jornalistas e às empresas de ensino
que formam jornalistas terão, segundo o pesquisador, prejuízos sensíveis a
partir da decisão do STF. “Apesar de provocar poucas alterações para o exercício
jornalístico no país, a decisão do Supremo afetará diretamente as corporações
sindicais e as empresas de educação que fabricam jornalistas em escolas pouco
qualificadas”, disse.
“A exemplo do que ocorre em outros países, a imprensa não poderá abrir mão
de pessoas qualificadas. Por isso não acredito em demissões. Isso representaria
a piora significativa da qualidade do material jornalístico”, disse. Para
Lima, o público brasileiro é bem mais esclarecido do que o da década de 1980
e, com isso, os veículos estarão atentos para não comprometer a qualidade
de sua produção e a efetividade dos processos comunicativos com o público.
(Pedro Peduzzi)
Fonte: Agência Brasil.
18/06/2009